A Nasa lançou ao espaço, neste domingo, o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, um dos mais avançados observatórios astronômicos já desenvolvidos pela agência espacial norte-americana. A missão tem como objetivo investigar alguns dos maiores mistérios da astrofísica e da cosmologia.
Com investimento estimado em US$ 4 bilhões, o telescópio foi lançado a bordo de um foguete Falcon Heavy, da SpaceX, a partir do Centro Espacial Kennedy, na Flórida.
O Roman foi desenvolvido para estudar fenômenos ainda pouco compreendidos pela ciência, entre eles a energia escura e a matéria escura, além de testar teorias sobre a gravidade em grandes escalas e procurar exoplanetas, como são chamados os planetas que orbitam estrelas fora do Sistema Solar.
Apesar das preocupações iniciais com as condições meteorológicas, o lançamento ocorreu sob céu azul, com algumas nuvens dispersas.
Após deixar a Terra, o telescópio seguirá em direção ao Ponto de Lagrange 2, uma região localizada a aproximadamente 1,6 milhão de quilômetros do planeta. A missão está planejada para durar cinco anos, mas a Nasa estima que o observatório possa ter combustível suficiente para permanecer em operação por até uma década.
Uma nova janela para o universo
O Nancy Grace Roman não substituirá telescópios como o James Webb e o Hubble, mas ampliará significativamente a capacidade de observação do universo.
Enquanto o James Webb foi desenvolvido para observar regiões muito distantes e com grande nível de detalhamento, o Roman terá como um de seus principais diferenciais a capacidade de observar grandes áreas do céu com rapidez.
A cientista sênior do projeto no Centro de Voo Espacial Goddard da Nasa, Julie McEnery, comparou os equipamentos às lentes de uma câmera. Segundo ela, o Webb funciona mais como uma lente de zoom, enquanto o Roman terá uma visão muito mais ampla.
A diferença de velocidade também chama atenção. De acordo com McEnery, um mês de observações do Roman poderá ser suficiente para mapear toda a Via Láctea, tarefa que levaria aproximadamente um século para ser realizada pelo Hubble.
Busca por matéria e energia escuras
Uma das principais missões do novo telescópio será ajudar os cientistas a compreender melhor a matéria escura e a energia escura, dois dos maiores enigmas da ciência moderna.
A matéria comum — formada por estrelas, planetas, gases, poeira e tudo aquilo que conhecemos — representa apenas cerca de 5% do conteúdo do universo. A matéria escura corresponderia a aproximadamente 27%, enquanto a energia escura representaria cerca de 68%.
A matéria escura não pode ser observada diretamente, mas sua presença é percebida pelos efeitos gravitacionais que exerce sobre galáxias e estrelas.
Já a energia escura é associada à aceleração da expansão do universo, fenômeno identificado pelos cientistas no fim da década de 1990.
O Roman deverá produzir um dos mais abrangentes mapas tridimensionais do universo, observando mais de 2 bilhões de galáxias durante seu principal levantamento científico, previsto para durar mais de um ano.
Com os dados coletados, os pesquisadores poderão estudar como a matéria se distribui pelo universo e como sua expansão evoluiu ao longo do tempo.
Milhares de novos exoplanetas
Outra frente importante da missão será a procura por exoplanetas.
O Roman deverá realizar uma das maiores pesquisas já feitas para identificar planetas fora do Sistema Solar. A expectativa é de que o observatório descubra milhares de novos mundos e ajude os cientistas a compreender melhor a formação e a organização dos sistemas planetários.
Os dados também poderão contribuir para a criação do primeiro grande levantamento estatístico de sistemas planetários semelhantes ao nosso.
Para o cosmólogo Mustapha Ishak, da Universidade do Texas em Dallas e integrante da colaboração científica do Roman, o potencial de descobertas inesperadas é um dos aspectos mais interessantes da missão.
Historicamente, grandes observatórios espaciais já proporcionaram descobertas que não estavam previstas pelos cientistas antes de seus lançamentos. O Roman poderá seguir o mesmo caminho.
Projeto enfrentou ameaças de cortes
O desenvolvimento do telescópio também passou por períodos de incerteza. Durante os governos de Donald Trump, em seu primeiro e segundo mandatos, houve tentativas de reduzir ou eliminar o financiamento destinado ao projeto.
O Congresso norte-americano, porém, manteve o programa, permitindo que a missão avançasse.
Segundo a Nasa, o lançamento do Nancy Grace Roman ocorreu nove meses antes do cronograma originalmente previsto, marcando o início de uma nova etapa para a astronomia espacial.
Com sua capacidade de observar grandes regiões do céu e reunir enormes quantidades de dados, o Roman deverá trabalhar em conjunto com o Hubble e o James Webb, ampliando a compreensão humana sobre a origem, a evolução e o futuro do universo.


