Recém-nascida vence covid-19 após 4 dias em UTI e mãe comemora: “Vencemos uma batalha”

Num relato emocionante, Luana Caroline conta como foi a experiência de dar à luz durante a pandemia e ter que enfrentar a covid-19, inclusive com sua bebê com poucos dias de vida.

Por: Correio Nogueirense
09/05/2021
Foto: Arquivo pessoal

O primeiro caso de Coronavírus no Brasil foi confirmado no fim de fevereiro de 2020, em São Paulo, na capital paulista, e a partir de março as medidas de isolamento social foram adotadas no país – e no mundo – como forma de minimizar os impactos da pandemia. A quarentena, para quem teve a possibilidade (e o privilégio) de fazê-la, alterou a rotina de praticamente populações inteiras, e escancarou a nossa capacidade de adaptação, mesmo nas condições mais adversas.

Num relato emocionante, Luana Caroline Gonçales Leão da Silva conta como foi a experiência de dar à luz durante a pandemia e ter que enfrentar a covid-19, inclusive com sua bebê com poucos dias de vida.

A pandemia do novo Coronavírus mudou todos os planos que ela tinha. Em depoimento ao Correio Nogueirense, ela contou como foi a experiência de dar à luz durante a pandemia, em uma carta escrita para a sua filha mais nova. Confira o relato na íntegra:

Foto: Arquivo pessoal

– Com 37s e 1 dia, depois de quase 24hrs em trabalho de parto veio ao mundo a Maria Clara, dia 22/03 às 14:26hrs de parto normal! Meu maior amor, eu contava as horas para tê-la em meus braços, e nesse dia assim se fez. Conheci minha princesa, linda, saudável. Contava os dias agora para poder ir pra casa com ela, e depois de 48hrs tive alta. Meu marido, meu cunhado e minha primeira filha foram nos buscar, que alegria conhecer nosso pacotinho de amor e poder ir pra casa!

Febre

Com 4 dias de vida Maria teve sua primeira febre, e foi aí que meu desespero começou, minha mãe, meus irmãos estavam em isolamento (por conta da Covid-19), meu marido também já não estava bem, então uma amiga da família nos levou ao pronto-socorro municipal de Artur Nogueira, chegando lá, tivemos algumas divergências, mais no final tudo deu certo, fomos atendidas, agendaram meu teste da covid pra próxima sexta-feira (26 de março de 2021), depois de uma semana… Para Maria passaram paracetamol, e pediram que eu administrasse nela durante 3 dias, e assim fiz. Dei, porém na segunda-feira a febre ainda persistia, foi quando decidimos levá-la até a cidade de Campinas. Chegando lá, fomos atendidas imediatamente, ela estava com 39° graus de febre, e ali começou a segunda parte da nossa história, até que o médico veio falar comigo, e me disse que por se tratar de uma recém-nascida, infelizmente ele tinha que internar ela, pois a febre era insistente e precisavam descobrir.

Foto: Arquivo pessoal

Covid-19

Meu mundo caiu! Eu estava ali naquela sala sozinha com a minha filha, tão pequena, e passando por aquilo tudo, mesmo sem querer, infelizmente já pensamos o pior, chorei, chorei muito! Me senti inútil, por não poder estar no lugar dela e tudo aquilo estar acontecendo com ela. E então vieram colher sangue, urina, e o teste da covid dela. Que dor ver minha filha chorando, ali sem eu poder fazer nada! Colocaram acesso na veia dela, e logo fomos encaminhadas ao CAISM (Centro de Atenção Integral a Saúde da Mulher), lugar onde ela nasceu. Chegando lá com a minha filha em meus braços, com meu coração em pedaços, a enfermeira veio, pegou ela, levou para dentro da sala e a outra veio conversar comigo. Me explicou que eu não poderia entrar na sala para ver ela, e que eu também não poderia ficar ali, que naquele momento eu teria que voltar para casa, por ser também suspeita de estar com covid, a Maria ficaria lá, sob os cuidados deles, e aguardaria os resultados dos exames feitos.

Meu mundo caiu, como eu ia vir pra casa e deixar minha filha ali? E então ela me entregou as roupinhas que a Maria usava, dentro de um saquinho para que eu trouxesse embora também. Sai dali em prantos, só sabia chorar, sentei em frente ao hospital, liguei pra que pudessem ir me buscar lá, pois eu não podia ficar com a minha filha. E ali sentada em frente aquele hospital, chorei, segurando as roupinhas da minha filha em minhas mãos, tentando sentir o cheiro dela, mais não sentia mais nada.

Porque comigo?

Parece que meu mundo parou, e eu só queria acordar e tudo aquilo não estar acontecendo, e foi onde eu olhei para o céu, e pedi entendimento, eu já não sabia de mais nada, não estava entendendo o porquê da minha filha, com 7 dias de vida apenas e eu ter que deixá-la, longe de mim pela primeira vez, só sabia chorar e perguntar porque Deus? Porque ela? Vim embora, anestesiada ainda, eu não acreditava que minha filha estava longe de mim, minha vontade era acompanhar em frente ao hospital e ficar lá, mais perto dela. Vim para casa, cheguei quase 21hr da noite, e uma pessoa usada por Deus, explicando tudo que havia acontecido, conseguiu que viesse uma enfermeira, para fazermos o teste da covid. E então fizemos, o resultado logo saiu, positivo. Eu já nem sabia se era possível doer mais do que já estava doendo em mim, e então eu só pedia pra Deus livrar minha filha daquilo tudo, se eu estava imagina minha filha?! Meu marido foi testado também, e também deu positivo. Minha primeira filha foi pra casa da minha irmã, era a única que estava bem graças a Deus!

O exame de Covid deu positivo

No outro dia recebo a ligação do hospital, dizendo que todos os exames dela tinham saído e todos estavam ótimos! Tudo certo, só estavam aguardando o da covid. E na parte da tarde outra ligação, o exame saiu, e deu positivo! Senhor, que sensação, que sentimento horrível, que dor! Mais minha pequena guerreirinha, estava estável… colocaram no oxigênio para ajudar, mais era bem pouco, diziam. Eu não podia visitá-la, somente saber dela por telefone. E foi aí que nossa batalha começou a ficar forte! Eu orava tanto, toda hora me pegava chorando, chorando muito, só queria ficar deitada, até passar tudo aquilo, não conseguia me alimentar direito. Não via a hora que chegasse no outro dia para eu poder ligar e saber notícias da minha menina, mais o medo do que eu poderia ouvir era grande também! Orando muito e contando com a oração de todos, assim seguimos dia após dia!

Foto: Arquivo pessoal

A cada dia tendo uma melhora

E cada dia uma melhora a mais, no segundo dia de internação ela já sairia do jejum, começou a tomar leite, e então eles me ligaram, passaram todas as informações para que eu pudesse tirar meu leite e levar para ela, e assim fiz, seguindo todo passo a passo!

Terceiro dia

No terceiro dia minha filha já tinha saído do oxigênio, já tinham levado meu leite para ela e os remédios que iniciaram, já tiraram também. Eu ali me vi tão forte, achei que não ia conseguir e lá estava eu, podendo alimentar minha filha mesmo que de longe, e me sentindo abençoada, abençoada demais, por Deus estar ouvindo nossas orações, por em meio a todo aquele sofrimento eu poder ter um pinguinho de esperança e quando ele quer, nada nem ninguém impede.

Quarto dia

No quarto dia de internação, exatamente na sexta-feira santa, não foi diferente, liguei de manhã pra saber da minha filha, estava bem, tinha tomado o leite já, e me falaram que ela era bem “bravinha”, a que felicidade, minha bravinha estava melhorando!! E então na parte da tarde, quase 16hrs recebo uma ligação, do hospital, meu coração gelou!

A melhor notícia

Recebi a melhor notícia da vida, minha filha estava de alta! Eu poderia ir buscá-la, gente que felicidade, que delícia receber aquela notícia. Arrumei tudo para a chegada dela, fui buscá-la, que ansiedade não via a hora de ver minha filha, já faziam 4 dias que não via ela, só recebendo notícias por telefone. E então depois de alguns minutos minha filha desceu com os médicos, minha felicidade era tanta! Eles conversaram comigo, me explicaram tudo que havia acontecido, e mesmo vindo embora para casa ela teria mais 2 consultas por chamada de vídeo para eles poderem acompanhar ela e ver como ela estava, já que ainda estaríamos em isolamento.

Foto: Arquivo pessoal

Novamente nos meus braços

E assim foi! Vim para casa com meu pacotinho de amor, que delícia que sensação maravilhosa poder segurar minha filha novamente em meus braços, eu só conseguia agradecer a Deus, agradecer por tudo! Pela vida dela, por me dar a oportunidade novamente de ter ela comigo.

Hoje, minha família está completa

Viemos para casa, cumprimos o isolamento, ela fez as consultas online e teve alta.  Hoje minha família está completa! Graças a Deus! Deus é bom o tempo todo, e age na hora certa, é tudo no tempo Dele, e hoje entendo que em meio ao caos Deus ainda estava ali, trabalhando, e as vezes não conseguimos entender o porquê de tal situação acontecer, mais Ele sabe, Ele entende, Ele cura, Ele pode fazer tudo aquilo que nós nem imaginamos. E mesmo não merecendo, Ele faz acontecer e está ao nosso lado, Ele nos honra.

Foto: Arquivo pessoal

DEUS transformou minha vida várias vezes

Deus transformou minha vida diversas vezes, e me mostrou que Ele está ali, que Ele tem o controle de tudo, a gente só precisa descansar e confiar Naquele que desde nosso nascimento já sabe nosso final! Esse vírus ainda não acabou, e só sabemos do tamanho do estrago que ele faz não só na vítima, mais na família também, quando ele bate em nossa porta! Dói passar por tudo isso, dói ver quem amamos passar por isso. Então fiquem em casa, e se não puder ficar, se cuidem, cuide de você e do próximo.

Luana deixa um recado para finalizar esse dia

Chegamos num tempo em que jamais imaginávamos viver tão cedo… agora, é de longe que se cuida de quem amamos!! Não é frescura, o vírus é real, e a cada dia muitas famílias choram a perda de um ente querido, sem poder nem se despedir, e isso é doloroso demais. Hoje tenho a oportunidade de estar com minha família, e irei honrar isso, e cuidar. Só Deus sabe a dor de uma mãe, quando algo de ruim chega aos nossos filhos. Que Deus abençoe todos nós, e nossas crianças.

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